domingo, 18 de outubro de 2009

A poltrona 19

Mariana chegou apreensiva e logo se sentou. Poltrona 19. Esse era seu ponto de partida. Agora sua vida ficava para trás. Ali era o início de uma nova era.
O homem sentado ao seu lado dormia, e Mariana achava melhor assim. Sem testemunhas. Recostou a cabeça na poltrona e fechou os olhos. Lembrou de tudo o que deixou: um marido violento, quatro filhos, um trabalho humilhante e massacrante, uma casa precária, uma família destruída. Era preciso fugir de tudo aquilo.
Cansada das surras constantes em casa, da sobrecarga de criar os filhos praticamente sozinha, da humilhação de um trabalho quase escravo, Mariana sentia-se infeliz. Então havia dois anos que maquinava sua fuga. Ali na caixinha de costura, lugar onde o marido jamais mexeria, foi juntando centavo por centavo, até conseguir o dinheiro de uma passagem de ônibus. Pra onde? Ela não se importava desde que fosse distante de tudo aquilo. Chegou a sentir-se culpada por querer deixar os filhos, mas a vontade de acabar com o seu sofrimento falava mais alto. De certo ele levará as crianças para a avó, aquela mulher que tanto a desprezara e humilhara. Mas com as crianças ela seria diferente. Não teria motivos para destratá-los.” São seus netos, têm o seu sangue”, - pensava Mariana enquanto o ônibus partia.
Lembrou de como foi astuta e enganou o marido ainda ontem, quando mentiu que ainda não havia recebido o dinheiro do seu pagamento. Logo ele, tão esperto, tão rápido em pegar da esposa o pouco que ganhava, foi enganado. Justamente por aquela a quem ele tanto desmereceu. Sentiu-se orgulhosa, pois havia muito tempo que o marido lhe causava nojo, raiva e pensamentos de morte. Pensou em tirar a própria vida, mas não conseguiu. Pensou em tirar a vida do esposo, não teve coragem. Porque o desejo de Mariana era vida. Era ser feliz, começar de novo, e não ser uma assassina. Sim. O desejo de vida falou mais alto que o de morte e então ela teve a ideia da fuga.
Mariana sentia o balançar do ônibus que começava a se agitar e então levou seu pensamento a tudo o que lhe reservava sua nova vida. De certo ia alugar um quartinho e logo procurar emprego. - “Quem sabe não havia naquele lugar uma grande fábrica de roupas, que contratasse costureiras com prática.” - Porque era fato que a moça era uma excelente costureira. Mas se não houver, ela toparia qualquer outro trabalho, desde que pudesse se manter. Comer e pagar o quartinho. Era o que Mariana queria a princípio. Depois que estivesse bem seu desejo era voltar a estudar. Pensava em um supletivo a noite, depois do trabalho. Ia finalmente ser alfabetizada. Ia conhecer os mistérios das placas, dos letreiros e nunca, nunca mais ia ficar apreensiva, com medo de errar a poltrona 19. Como ficou ainda a pouco ao entrar no ônibus. Temerosa em tomar o lugar de outro por pura ignorância.
Num repente Mariana sentiu um puxão no braço. Abriu os olhos ainda atordoada pelos pensamentos:
“- Vai ficar aí deitada preguiçosa? Eu preciso de um café. Forte. Levanta! Acha que só porque é domingo vai ficar a toa? Acorda e vai cuidar dos seus filhos. Mulher preguiçosa.”
Mariana reconheceu a voz do marido. E jurou que um dia ainda realizava o sonho que tinha todas as noites.
P.S - Inspirada pelo livro do prof. Palermo, aí está meu primeiro conto. Opiniões serão aceitas e consideradas tá?
Ah, deixo claro que contos não são (ainda) minha especialidade viu gente????

3 comentários:

  1. Tá ótimo Tati,tem certeza que está começando agora???rs

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  2. Tati, belo texto, e já está no blog do grupo.
    Beijo.
    Simka

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